segunda-feira, 30 de maio de 2011

Das dores no corpo

Triste estar sozinho. É tudo tão silencioso. E o silêncio, esse vício nefasto! Ouço Chopin. Apenas para expurgar as dores que me perduram no corpo. Experiência etílica inevitável, também denominada ressaca, e que pode ser docemente vivenciada, também, somada à tristeza e ao desespero. Ciência dos desregrados? Quem sabe?
Meta o dedo na logia, moça
Metodologia
Deixe a louça e tire a roupa, moça
Hora da orgia
E a orgia é só felicidade, moça
Adoça o azedo da agonia

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Sobre o som

Tenho os ouvidos atentos. Ainda que cultive o silêncio, ouço. Inevitável, essa existência auditiva! E como são estranhos os sons da cidade! As janelas, noites inteiras, gemem! Os carros, buzinam! Os homens espirram, escarram, conversam! E como conversam! Futilidades, frivolidades! Desmanchados em riso! Um riso demoníaco, que se expande, expande, expande! Sonoridade! Insanidade! Eu? Eu ouço absurdos, apenas! Apenas! Uma imensidão de palavras estúpidas! Histerias e histrionismo! Exageros! As palavras da multidão, do povo! Dos que rezam em cada sentença! Rezam quando gemem! Rezam quando ensinam! Ando cansado da sonoridade das cidades! Dos motores! Do canto dos pássaros que acordam sempre cedo! Mania de metrópole! Eu, portanto, vou regressar ao silêncio. Volto em breve!

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Sobre o último Domingo

E o mundo, dando de ombros para os que, trôpegos, rezam suas idiossíncrasias, caminha. Do outro lado da rua, as meninas, moças de família, olham espantadas as prostitutas que cantam suas alegrias na decrepitude de um bar de esquina. Bares. Eu prefiro caminhar entre os mais baixos, entre as más companhias. Prefiro a boca-suja dos que se dedicam a esquecer a existência com sinceridade e desespero. E o mundo, dando de ombro, esquece-nos! Ignora-nos! Eis, a nossa felicidade! A felicidade mais intensa: o esquecimento! E as meninas, agora sedentas, com os seios sobressalentes e arfantes, nos olham com inveja! Somos felizes! Nós, os que se devotam ao esquecimento! E essa nossa felicidade estapea a suas medíocres existências, reduzidas que são aos valores, ao polimento dos valores mais arcaicos! E o mundo, dando de ombros, ri! E nós rimos todos! Extasiados com a embriaguez do álcool! Extasiados com a embriaguez da liberdade! Da liberdade de existir, apesar dos outros!  

Retomando os cadernos antigos III

O poeta explora a poesia pela insônia
e a musculatura de uma coxa dura é o espasmo,
pura sensação, colapso!
Corpos são placas tectônicas!
E a paixão é a evolução da espécie!

Retomando os cadernos antigos II

Cala boca, José
E arranca do teu corpo essa roupa, José!
Lança essa vergonha no chão!
Larga a louça, José!
Deixa de banhar os utensílios!
Deixa de acalmar os teus delírios!
Que eles são feitos de fogo!
Esqueça os teus livros, José!
Que são vento sem destino!
Deita ao meu lado, José!
Que o sentido desfalecerá!

(Algum dia de 2008)

sábado, 14 de maio de 2011

Eu, caro amigo, prefiro a simplicidade da gelada bebida nos balcões de mármore, naqueles dias em que se bebe aos poucos, sem a pressa costumeira do cotidiano, sem o cansaço das burocracias. Trabalho. Universidade. Eu prefiro o gosto amargo das conversas desprovidades da seriedade reflexiva das filosofias e de seus filósofos. Ando com saudades dos antigos. Ando vasculhando os antigos. Procurando-me. Antigo. Ando com saudades da infância. Eu. Que pensava distante essas sensações! Parece que hoje se aproximam. Sensações estranhas. Ando com as costas doloridas. Efeito do tempo. Costas e pensamentos. Parecem, ambos, doer. Continuemos. Por enquanto, as saudades da gelada, da simplicidade de um copo americado brindado, conscientemente, em vão. 

Retomando os cadernos antigos!

Nunca fui poeta

Quando me disseram poeta, ri
Nunca fui poeta!
E se me afirmam alcóolatra, aplaudo!
Aproximaram-me do mundo, ao menos!
É um erro grave dizer-me um e outro!
Eu, que nunca fui nada!
O que de bom ou reles fui, fez-se nada!
Hoje, ainda, fui ainda menos!
Não busquei formar-me!
Não li os doutos!
Sequer ouvi as sinfonias!
Pretendia, mesmo, era esquecer-me!
Enfim,
Lembrei-me de escrever se havia sido!
(...)
Perdi o tempo!

(28 de Novembro de 2008)

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Tenho poucos leitores. Satisfeito. Nessa semana, uma pessoa leu minhas palavras. Estou quase certo que seja você, Mazu! Andemos com nossa solidão inescrutável, com nosso silêncio primordial que, na verdade, é sonoridade velada. Eu, sinceramente, agradeço o tempo devotado às palavras do antigo amigo. Palavras são assim. Quando não lidas, dedicam-se a ocupar um silêncio por demais severo. Eu, com sincero coração, ainda prefiro o silêncio.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Sobre o outro

Penso nos outros. Na incomensurabilidade dos outros. Esses outros. E tantos outros. Caminhando com suas vidas pelas vielas da vida mesmo. Encontrando sentidos. Aceitando sentidos enlatados. Perdendo os sentidos. Penso no outro como uma espécie de espetáculo. O espetáculo big brother, o outro-exposto. Penso o outro como uma espécie de vazio. Ou ainda, o outro como abismo. Queria enxergar essa dimensão, tão profunda, do outro. Ainda mais triste. Penso no outro-espelho. Apenas o lado inverso do que sou. O outro de mim mesmo. Mas o avesso. O outro-eu. Logo eu, essa enormidade do tantos outros. Prefiro permanecer no silêncio, no outro como silêncio-de-si-mesmo. Na indiscernibilidade do outro como fenômeno. Das aparências, apenas os traços mais superficiais. Das formas, apenas aquelas que traçam linhas tênues, que se desmancham com a leveza dos ventos, com as brisas. Prefiro, mesmo, o silêncio do outro. A glória do silêncio do outro. Que nada dirá de si mesmo. Um eterno e imutável silêncio-de-si-mesmo. Prefiro, mesmo, o pensamento. Como estado único e individualizante de tantos outros possíveis. Eis, meu silêncio... 

Porque, Cláudia Leite?

Prefiro, apenas, narrar a experiência. Façam suas conclusões. Era terça-feira. Uma daquelas terças-feiras em que o sol, radiante e majestoso, brilhava mais que intensamente. Deitei-me. Na sala. Onde uma levíssima brisa, como que uma benção divina, aliviava os calores do corpo destinado ao descontrole térmico. Resolvi, então, para melhor aliviar uma tarde como esta, ouvir o disco que acabara de comprar, numa barganha sensacional com o dono do Sebo Cultural. O disco era Tom. Simplesmente Tom. Cantando, entre tantas, sua Luíza. Mas, infelizmente, meu dia estava fadado à miséria. Miséria do corpo, do corpo quente. Miséria da cidade. E de seus sons. Explico. Tom começava sua disco. Cantava-me Luíza. Tocava. Num instante, a voz rouca do maestro brasileiro foi interrompida pela sonoridade estúpida das cidades. Era Cláudia Leite. Gritando suas histerias no carro-boate  do jovem vizinho. Pensei. Coitado de Tom. Ou ainda: Porque, Cláudia Leite? Porque? Porque?

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Sim. Escrevo. Minha solidão. Minhas horas. Horas em que deito os dedos no descanço de meu desespero. Escrevo com bebo. Repleto dos sentidos, dos signos. Escrevo como quem espera. Como quem desperta. Escrevo como quem se embriaga. Estado dionisíaco. Escrevo como quem desiste. Como quem insiste na vida, na existência. Como quem desiste da insônia, insone.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Acordo. Inda com as estruturas do pensamento em repouso, levanto. Uns minutos, e retomo a antiga habilidade de pensar. Pensar em nada. Os primeiros minutos do dia são silêncio. A água fria no rosto incólume dos pesadelos noturnos. O gole "seco" num café amargo e forte que desce às vísceras queimando os germes que sobreviveram às noites sem a escova de dentes. As cordas do violão. Um sentimento. Espero. Apenas a insistência do silêncio do pensamento que permanece pensando em nada. Desisto. Melhor dormir novamente. Espero o entorpecimento televisivo atuar. Mais alguns minutos, e durmo. 

segunda-feira, 28 de março de 2011

Caminhada. Para uma vida empunhada nas pernas, nas andanças e nas paragens. Andarilho. Para uma vida aquecida pela vibração dos nervos e dos músculos cansados. As mãos ásperas. O peito arfante e os olhos cansados de tanta imagem e passagem. Enfim, caminhada.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Lembro dos antigos Sambas de Enredo. Do 9,5. Da deficiência melódica do meu samba. Não consigo esquecer a (im)competência julgadora dos que preferem os sambas-bumbuns. Eu prefiro Silas de Oliveira e Mano Décio da Viola. Prefiro Anescarzinho. Prefiro os bambas do Estácio. Prefiro Geraldo Babão. Mas não vou insistir no tema. Senão, acabo piegas. Reproduzindo ressentimentos vazios. Caminhemos. Ao samba!